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sábado, 30 de janeiro de 2021

Eu, Avaliador

 Sempre que me presto ao papel de avaliador, seja de um produto, serviço, candidato, etc, pergunto-me primeiro: tenho algum envolvimento emocional com o ente avaliado?


Se a resposta for sim, tenho certeza de que meu julgamento estará prejudicado e, por razões éticas, abstenho-me de proceder à avaliação.

Uma avaliação influenciada pela emoção não é apenas ruim para o ente avaliado, como também para os que farão uso dessa avaliação e ainda para o próprio avaliador.

Um avaliador guiado pela emoção facilmente se desvia da razoabilidade, promovendo ou depreciando de forma irresponsável o ente avaliado.

Se tem sentimentos positivos em relação ao avaliando (seja um produto, um serviço ou uma pessoa), elevará seu valor. Ao contrário, se são negativos, depreciará o avaliando.

Dessa forma, a avaliação equivocada pode levar outros a tomarem decisões igualmente equivocadas, como comprar um produto ou serviço ruim, deixar de comprar um produto ou serviço bom, contratar um profissional com habilidades aquém do esperado ou deixar de contratar um profissional com habilidades além do desejável.

O avaliando é prejudicado por perder a chance de entender suas fragilidades e trabalhar sobre elas, quando é erroneamente supervalorizado, ou perder uma oportunidade, quando seu valor é diminuído com base na emoção do avaliador e não nos fatos.

Por último, o avaliador se prejudica, pois outros avaliadores o porão sob suspeita, até que todos descubram a predominância de suas emoções sobre seus julgamentos e a sua credibilidade desapareça.

Outra pergunta importante é: quem sou eu para avaliar esta pessoas, este produto ou serviço? Neste caso, verifico minhas qualificações (técnicas, científicas, etc). Por exemplo, quando avaliado um livro, sei que sou um bom leitor e tenho um histórico de leitura de milhares de páginas de todos os gêneros mais conhecidos. Se é um texto de matemática, verifico se tenho expertise naquela área especificamente. Se for uma máquina, preciso saber qual é o meu nível de entendimento técnico daquilo, e assim por diante.

Sem essa verificação, não estarei avaliando, mas simplesmente emitindo uma opinião, provavelmente sem nenhuma base que mereça a credibilidade de uma avaliação.

Portanto, se você vir uma avaliação minha por aí, seja de produto, serviço, etc, saiba que ela é a mais justa que foi possível naquele momento.

Um abraço! E até breve!

domingo, 8 de novembro de 2020

As Lições de Violino

 Por Marcos Pinnto



Em alguns logradouros, vizinhos costumam ser testemunhas auditivas de muitas ocorrências da casa ao lado, sejam elas produzidas em momentos de euforia, de raiva… ou em momentos mais íntimos, em alguns casos.

Num desses lugares, uma moça com idade entre 20 e 25 anos decidiu aprender a tocar violino. Pegou parte de suas economias, matriculou-se numa escola e comprou o melhor violino que podia comprar com seus recursos.

Talvez você não saiba, mas aprender a tocar violino leva algo em torno de cinco anos, dependendo da pessoa. E, no início, são inacreditáveis os sons terríveis que alguém pode produzir com um instrumento como esse.

Claro que os dois vizinhos mais próximos, de um lado e de outro, seriam os mais afetados pela decisão da jovem. Teriam de suportar horas de treinamento da moça por um longo tempo.

Um dos vizinhos tentou dissuadir a moça de aprender a tocar aquilo. Reclamava todos os dias com quem encontrasse pela rua. Viu que aquilo não teria jeito e se aborreceu a ponto de vender sua casa e comprar outra em um lugar mais sossegado.

O outro vizinho também sofria com os arranhões nas cordas do violino, mas, ao contrário do outro, incentivava a aprendiz a dedicar-se mais, a treinar mais horas por dia, a prestar mais atenção nas aulas de violino.

Anos depois, a jovem, agora com quase trinta anos, começava a se apresentar profissionalmente e, todos os dias, seus vizinhos tinham o prazer de ouvi-la tocar, num espetáculo quase particular.

Esse caso mostra que, em certos momentos, podemos escolher entre desistir de uma pessoa ou tolerar suas falhas enquanto lhe ajudamos a evoluir. Pois, tolerar é ter a certeza de que o outro está em evolução.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Minha Opinião sobre Opinião

 Por Marcos R Pinnto*

Eu tenho certeza de que a opinião do outro é importante, pelo menos para ele próprio. E na maioria das vezes, essa opinião tem um forte motivo para existir. O problema que vejo é quando os motivos fortes são simplesmente a admiração por outra pessoa.

Ter admiração não é ruim. Pelo contrário, é muito bom admirar alguém. Mostra o quanto somos capazes de reconhecer os pontos fortes de uma pessoa. Mas, não é por isso que devemos copiar as opiniões da pessoa admirada e assumir que são nossas opiniões, sem nenhum fundamento.

Outra ocorrência não muito incomum é a opinião que se apoia em pontos contraditórios ou carregada de ambiguidades. Sabe aquela opinião que tem muitas exceções para ser? Ou ainda, aquelas opiniões que simplesmente são contrárias à nossa experiência ou ao raciocínio lógico.

O caso da opinião que se apoia em pontos contraditórios pode ser exemplificado de forma exagerada pela seguinte construção: “eu sei que todo gato é um felino, mas esse gato não é um felino”. Essa é uma opinião que usa um argumento que contradiz a afirmação de que o gato não é um felino. Além disso, a nossa experiência é desconsiderada pela afirmação.

Um caso de contrariedade do raciocínio lógico pode ser visto na seguinte construção: “no meu relacionamento, a vontade do outro é sempre respeitada”. Aqui não importa vontade de quê. Só haveria esse respeito se as vontades fossem iguais. Se as vontades são distintas, uma das duas está sendo afrontada. É óbvia a falta de lógica na afirmação, provavelmente dita com a intenção de amenizar a verdadeira mensagem que, provavelmente seria: se um dos dois não quer, os dois não fazem, seja lá o que for que queiram ou não fazer.

Se você prestar atenção, em muitos discursos, perceberá que muita gente fala de cadeira e de assento como se fossem dois sistemas avessos, cita trechos de especialistas renomados para confirmar sua opinião e prova, por a+b, que sua opinião está bem fundamentada. Pura falácia.

Mesmo assim, você, como bom ouvinte, deve respeitar a opinião do outro. Não importa o quanto estapafúrdia ou hilária ela pareça ser.


Um forte abraço e até breve!




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* Doutor e mestre em Engenharia Civil (recursos hídricos), especialista em EaD, professor de matemática, estudante de Cinema.

quarta-feira, 26 de agosto de 2020

Desaprendendo a Matemática

Desaprender é uma coisa bem mais difícil do que se pensa. É verdade. Depois de aprender alguma coisa, normalmente a pessoa se apega àquilo e não quer mais deixar. Esse apego é normal, principalmente se houve esforço para se obter aquele aprendizado. Por isso, desaprender nos custa tanto.

Pior é quando alguém foi levado a acreditar que aprendeu algo, mas, de fato, obteve um aprendizado sem inteligibilidade, para usar uma expressão de Cipriano Luckesi. Em seu livro Avaliação da Aprendizagem: componente do ato pedagógico, Luckesi mostra um exemplo muito claro de um aprendizado exclusivamente mecânico, isto é, sem nenhuma compreensão do processo executado. Faço questão de reproduzir o exemplo aqui, com poucas modificações porque eu mesmo já fui acusado de estar “dificultando o assunto”, que certos alunos haviam “aprendido de forma mais fácil”.

O exemplo é o seguinte: transformar a fração mista 2 ¼ em 9/4. O mecanismo usado pelos alunos era “multiplicar o denominador pelo inteiro, somar o resultado ao numerador e repetir o denominador”. Neste caso, o aluno é capaz de memorizar o procedimento, depois de algumas repetições, mas não compreende o processo. Muito provavelmente ele não saberá a razão pela qual deve proceder assim. Esse é o tipo de aprendizado que Luckesi chama de ininteligível.

A primeira agressão ao aprendente se faz ao negar-lhe a formação do senso crítico, pois alienar a compreensão do processo e aceitar um “faz assim que dá certo” é um ato avesso a isso. E quando pessoas aprendem dessa forma, dificilmente conseguem se libertar dela. Se essas pessoas forem expostas a uma experiência de aprendizagem inteligível, sentirão tamanha dificuldade a ponto de dizer que estão desaprendendo a matemática.

Mas, se a matemática foi aprendida desse jeito, o melhor seria desaprender mesmo, pois ela serve simplesmente para resolver questões ensaiadas e repetidas e não para resolver questões da vida nossa e em sociedade, que no fim de tudo é o que se espera de nós.

A ideia de que primeiro deve-se aprender a fazer para depois compreender pode gerar um círculo vicioso para o resto da vida de uma pessoa. E a educação que deveria colaborar para a formação de um cidadão íntegro, consciente de seus direitos e deveres para com a sociedade, simplesmente trabalha no sentido contrário, dificultando sua individuação, ou seja, sendo apenas uma educação de massas.

Aos meus alunos que serão professores de matemática, falo que não tenham medo de ensinar matemática. Ter medo de ensinar matemática é mais comum do que se pensa. Os professores têm medo por vários motivos. E esse medo leva a bolar os chamados macetes, alienando a compreensão do processo por medo de que esta não seja alcançada até o fim do período e se acabe por não cumprir a “entrega” do conteúdo programático, o qual é enfatizado como fundamental, em detrimento do próprio processo de aprendizagem.

Para o exemplo dado por Luckesi, vou mostrar aqui uma abordagem que acredito ser uma boa alternativa.

Para somar frações, supomos que uma pessoa compreenda a natureza de uma fração. Assim, ela pode ver o número dois como 2/4 + 2/4 + 2/4 + 2/4. De fato, quatro partes somadas de 2 resulta no inteiro 2. Se não era natural somar 2+1/4, agora parece natural somar a quarta parte desses números. Daí, 2+1/4 = 2/4+2/4+2/4+2/4+1/4 = (quantos “quartos” temos?) 9/4.

Somente depois da compreensão do processo, a pessoa pode chegar ao “macete”, por conta própria.

Se você está pensando algo como “do primeiro jeito é mais fácil”, provavelmente você foi vítima dos macetes da aprendizagem ininteligível.

Infelizmente, o sucesso na educação é medido por exames escritos que muitas vezes não são ferramentas adequadas para capturar o nível de compreensão do examinado. E aqui vale lembrar que avaliação de aprendizagem é uma ferramenta de natureza diferente do exame (para mais informações sobre isso, leia o livro do Luckesi, citado). Essa medição do sucesso na educação implica em muitas distorções no processo de ensino, que acabam por distorcer o processo de aprendizagem.

Quem não se lembra das estrelas dos cursinhos, com salários invejáveis, superando até a remuneração de profissionais como médicos e engenheiros?

Esse pessoal inspirou muitos jovens, facilitou a realização dos sonhos de muitos jovens e fez o nome de muitas escolas.

E eles não são culpados pela aprendizagem maceteada. O culpado é a forma de medir o sucesso. Eles apenas se adaptaram a isso.

Em um livro dedicado a estudos para concurso, certo autor faz uma apresentação do método utilizado no seu livro e um relato que cabe muito bem aqui. Segundo o autor desse livro, que à época da escrita do mesmo era juiz federal, ele mesmo já havia prestado vários concursos. Um deles para a Polícia Federal. Neste concurso, especificamente, teve a oportunidade de conhecer outros aprovados, durante o curso de formação, a maioria deles com classificação inferior à do autor. O que chamou a atenção do autor foi que, embora eles tivessem obtido classificação inferior a dele, os outros candidatos tinham uma compreensão profunda dos temas da prova, compreensão que, segundo o autor, ele mesmo não tinha. A conclusão a que ele chegou foi que nas provas de concurso público não passam candidatos com conhecimentos mais sólidos, mas os que se prepararam de acordo com o exame.

O método apresentado por ele no livro dava uma enorme ênfase à memorização mecânica e a marcação de itens com base em estatística. Essa última parte consistia no seguinte: se uma prova tinha 100 questões de itens A, B, C, D e E, e o candidato soubesse responder a 50 delas, deveria contar quantas letras de cada uma marcou. Digamos que, das 50 questões, apenas 3 tinham como resposta o item D. O candidato deveria marcar todas as outras com essa letra. Por quê? Porque num exame desse tipo, o normal é distribuir as respostas entre as letras da forma mais igualitária possível. Nesse caso, teríamos 20 de cada letra. Usando esse macete, o candidato ganharia provavelmente 17 questões das quais ele não fazia a menor ideia de qual seria a resposta certa.

Certamente, esse não é um caso de aprendizagem inteligível.

Pior ainda, pode ser um indício de um caráter duvidoso, principalmente se tratando de um candidato ao serviço público, serviço que deve ser pautado pela moralidade. Veja bem: uma coisa é marcar uma questão a qual se acredita saber a resposta e eventualmente acertar. Outra coisa é ter consciência de que não se sabe nada daquele assunto e mesmo assim, arriscar, usando artifícios que aumentam as chances de acerto. No primeiro caso, não há nada de errado. No segundo, um sinal de alerta deve ser ligado.

Vimos assim que a forma de medir o sucesso em educação pode prejudicar a aprendizagem, distorcendo os processos de ensino e de aprendizagem, colocando professores e alunos diante do dilema de uma aprendizagem inteligível e o sucesso nos exames em diferentes situações.

Uma vez exposta aos macetes, e consequentemente, a aprendizagem ininteligível, dificilmente a pessoa consegue libertar desses mecanismos para avançar na compreensão devida. O problema pode se estender para todos os níveis escolares, prejudicando o desenvolvimento da pessoa e de seu respectivo exercício da cidadania.

Espero que a leitura tenha sido útil.

Um abraço e até breve!

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Difamar por meio da Literatura de Ficção é Possível?

 Antes de entrar no assunto, lembro a você que este é um blog de opinião. Você não vai encontrar aqui uma definição com base jurídica ou algo assim. Esclarecimento feito, vamos adiante.

Difamar é atribuir fama de teor negativo a alguém. Trata-se de uma tentativa de diminuir os méritos de alguém ou de mostrar que aquela pessoa não merece nenhum apreço. A difamação sempre envolve três atores: o difamador, o difamado e o que soube da difamação por algum meio. O primeiro ator é o da ação, o segundo o paciente e o terceiro, o neutro.

O agente difama o paciente para o neutro. Embora o agente e o paciente sejam pessoas específicas, o neutro não precisa sê-lo. Quando se coloca um cartaz com os dizeres “fulana trai o namorado com qualquer um”, a pessoa que colocou o cartaz pode até ficar no anonimato, mas ainda sabemos que se trata de alguém específico. A fulana (e torço para não existir ninguém com esse nome…) é o paciente da ação difamar e o responsável pelo cartaz é o agente dessa ação. Já quem vai ler o cartaz não podemos especificar.

No entanto, se em vez de um cartaz afixado em um local público, alguém escreve um bilhete e envia para o namorado da fulana, temos um caso de neutro específico, mas, como dito, não é necessário para o ato.

Muita gente confunde difamação com humor e vice-versa. As brincadeiras entre garotos são muito parecidas com difamação e outras coisas, mas são brincadeiras, e os envolvidos assim encaram. Qual garoto ou mesmo homem-feito não participou de uma brincadeira que, em outro contexto seria um sério caso de difamação? Lembro-me de um colega de faculdade que me encontrava pelos corredores, nos intervalos de aula, e nós dizíamos coisas um para o outro como: “e aí, melhorou da sífilis?” O interessante nesse caso é que nós não parávamos para esclarecer aos transeuntes que aquilo era uma brincadeira. A nossa brincadeira durou vários semestres, até que ele resolveu pegar pesado. Fez uma declaração de amor pra mim, fingindo estar desesperado com o fim do nosso fictício relacionamento. Formou-se uma enorme roda de curiosos para ver a performance do meu amigo. Alguns perceberam que aquilo era uma farsa. Mas outras acreditaram plenamente naquilo. Achei engraçadíssimo o fato de, na fila da biblioteca, uma moça repetir as últimas palavras do meu amigo: “você não pode me abandonar, eu não sei viver sem você”. Ela queria me afetar com aquela fala, como se aquilo fosse me envergonhar ou algo assim. É claro que ninguém processou ninguém por aquelas brincadeiras. Aquilo era humor e não difamação.

Como falei vice-versa, e lembro a você mais uma vez de que esta é uma opinião, alguns humoristas confundem humor com difamação. Insinuar, por meio do humor, que todos os líderes religiosos são desonestos é um caso flagrante de confusão entre humor e difamação. Esses casos não são passíveis de processo por difamação porque não se dirigem a uma pessoa específica (lembra do que falei sobre agente e paciente serem específicos? Pois é).

E na literatura de ficção, é possível existir difamação?

É elementar que não. É impossível alguém ser difamado por meio da ficção. Em uma crônica, como esta, num artigo jornalístico, numa biografia, sim, é possível. Mas na ficção, pela sua natureza, não tem o poder de difamar alguém. Você pode até se lembrar de casos em que cantadores das cantigas de mal dizer, poetas, repentistas e cordelistas se utilizaram de suas obras para atingir alguém de alguma maneira. Lembra daquele poeta da época da Inconfidência Mineira? Se não, depois você pode refrescar a memória lendo sobre ele e seus poemas afiados e contra quem ele os dirigia. Veja bem: poesia, repente, cordel, não são necessariamente obras de ficção. Aliás, muitos deles são famosos justamente por falar da realidade de forma dura, incisiva. Por outro lado, eles são veículos da expressão de afetações de seus autores.

Agora imagina o seguinte: um autor, amigo meu, resolve meter em uma de suas histórias um personagem chamado Marcos Rodrigues. O personagem é um professor desonesto que prejudica várias pessoas ao longo da história. Eu deveria processar meu amigo por difamação? Se o fizesse, ganharia o título de idiota do ano. Ao rotular sua obra como ficção, o autor já afirma que tudo o que diz ali é inventado, nada é verdadeiro. Ou seja, tudo o que é dito, desde o início até o final, é desdito pelo autor. Quando você lê uma obra de ficção, tenha em mente que há um prólogo invisível que diz: “daqui para a frente, tudo o que for dito é mentira”. Portanto, é impossível difamar alguém se você mesmo já está prevenindo o leitor de que aquilo é tudo invenção da sua cabeça. Em outras palavras, para haver difamação é preciso que o agente deseje fazer acreditar nas suas afirmações. Como se poderia querer fazer crer em afirmações que o próprio emissor diz serem frutos da imaginação?

Mas há os romances baseados em fatos. Isso é verdade. Mas, baseado em fatos… O que é mesmo isso? É muito difícil dizer que algo não é baseado em fatos. Vamos pegar a saga Star Wars. Você já deve ter lido a histórias dos grandes impérios, das lutas pela destruição do império. Você consegue ver alguma similaridade entre a famosa saga das grandes telas e a história real? E o que dizer de Alice no País das Maravilhas? Se você conhece o contexto da época e algo da biografia do grande desenhista, escritor, matemático, autor dessa fantasia maravilhosa que atravessa gerações, deve saber em que fatos ele se baseou.

Voltando à questão central, os romances baseados em fatos, esses é que não podem mesmo serem acusados de difamar alguém. Ora, se é fato, automaticamente estaríamos diante de uma excludente da difamação. Falei que não se tratava de um texto jurídico, mas, caso você não seja do ramo, em direito, existem as excludentes e as atenuantes das infrações penais. O crime de agressão, por exemplo, tem na violenta emoção uma atenuante, mas não uma excludente. Já a legítima defesa exclui a ilicitude do ato de agressão. Assim, se é pura ficção, não há que se falar em difamação. Não é porque uma obra se baseia na realidade que o que se diz nela será verdade, ou seja, continua sendo ficção. E se for verdade, pior, pois é excludente da difamação.

Portanto, no mundo fictício, não existe crime. O que existe é faixa etária recomendada.



Um forte abraço e até breve!

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A Ilusão da EaD Universal


Por Marcos Pinnto*


A educação pública brasileira está longe de alcançar uma boa qualidade. Para uns, a culpa dessa qualidade inalcançada é dos alunos desinteressados em aprender conteúdos que não lhes levarão a nenhuma, ou quase nenhuma, transformação, nem social, nem pessoal. Para outros, a culpa é do professor, eternamente mal formado, mal pago, sem prestígio, tratado em regime de fábrica, longe de ser tratado como um profissional que usa o intelecto para realizar seu trabalho.

Uma preocupação que atropelou a busca pela qualidade foi a universalização da educação básica. Tornar a educação básica acessível à quase toda a população em idade escolar foi parte do compromisso de muitos governantes ao longo dos anos dois mil e seguintes. Por outro lado, a qualidade da educação cada vez mais parecia, e parece, estar distante do que se pode chamar razoável, para a quase totalidade dessa mesma quase totalidade que se desejava dar acesso à educação.

Apesar da maquiagem de algumas instituições, o indivíduo médio egresso das escolas públicas é a prova irrefutável da qualidade aquém do esperado e com uma correspondência desproporcional com o gasto de dinheiro público.

Nos tempos da pandemia de corona vírus iniciada em março de 2020, esta mesma educação de qualidade duvidosa tentou migrar para a modalidade a distância. Não é preciso ser nenhum especialista em educação ou sociólogo para perceber que essa migração seria desastrosa.

Parte desse desastre vem de uma contradição flagrante: a ênfase na universalização e a desconsideração da exclusão de grande parte da população de usuários da educação pública. Ou seja, mesmo aqueles que foram alcançados por essa educação pseudouniversal serão agora abandonados.

Vamos pensar um pouco. Se os professores eram considerados despreparados, mal formados, desprestigiados, por que agora eles seriam melhores trabalhando a distância?

E se os alunos eram desinteressados, mesmo depois de se deslocar até a escola, muitas vezes enfrentando situações adversas, por que agora se transformariam em estudantes exemplares na modalidade a distância?

Se você estudar sobre as teorias que embasam a EaD, vai se deparar com um perfil de aluno muito exigente para que tenha sucesso nesta modalidade. Automotivação e autodisciplina são requisitos fundamentais para ser um aluno bem-sucedido num curso sob a EaD. O que você acha que vai acontecer com aquela quase totalidade referida no início desta crônica?

Ah! Tudo bem, esquece a qualidade de vez e vamos cuidar apenas da universalização.

A tão sonhada universalização da educação básica, se não havia sido conquistada presencialmente, pior ainda será a distância.

A experiência que mais se aproximou da universalização de uma educação básica, talvez tenha sido feita por uma fundação privada. Essa fundação, cujas atividades foram iniciadas em 1977, percebeu que a televisão seria uma boa aliada da educação e da cultura no país, podendo levar conteúdos de excelente qualidade aos lugares mais remotos e menos favorecidos economicamente.

Em 2020, 43 anos depois do surgimento daquela fundação, a TV ainda era a tecnologia que mais possibilidade tinha de levar educação a um número satisfatório de pessoas.

Em 2018, o IBGE divulgou uma pesquisa mostrando que menos de 3% das residências não possuíam televisor. Esse número é mais relevante do que os 180 milhões de notebooks e tablets registrado em 2019 pela Fundação Getúlio Vargas. Ou mesmo os 230 milhões de celulares ativos no mesmo ano. Porque sabemos das desigualdades profundas em nosso país. Sabemos que é muito diferente, por exemplo, ter um Apple e um CCE. Outra coisa que sabemos é que uma mesma pessoa, devido a alta concentração de renda, pode ter vários aparelhos, incluindo notebooks, tablets e celulares.

Existe uma parcela considerável dos lares que não possuem computador. Nesses lares, em geral, as pessoas não têm nenhum treinamento para utilizar um computador. Outro problema é o acesso à internet, caríssimo e de péssima qualidade. Ter internet em casa, no Brasil, é quase um luxo.

Plano de dados! Essa seria a solução salvadora, se não fosse apenas ilusória.

Cerca de 70% da população usa bônus de celular pré-pago e tem um pacote limitado de dados. Os alunos vão preferir gastar seu pacote de dados com as maravilhosas aulas ou com suas redes sociais? Seria razoável exigir deles que abram mão, neste momento, da sua forma de interação mais segura, em termos de saúde, para usar seus GB de dados com aulas?

Vamos esquecer, por enquanto, essa quase impossibilidade de acesso à internet e vamos supor que os aparelhos são razoavelmente adequados em termos de tamanho, nitidez, memória e capacidade de processamento. Agora me diga, você estudaria 4 horas ou mais pela tela de um celular?

Agora vamos para o outro lado.

Os professores, em sua maioria, têm um salário que limita bastante sua capacidade de consumo, concorda? Para atender às necessidades de um curso na modalidade EaD, o professor deveria ter: um computador equipado com câmera, softwares específicos, placa de vídeo, acesso à internet com um sinal estável, material pronto para disponibilizar para os alunos, entres outras coisas.

Mas, como somos extremamente otimistas, vamos imaginar que cada professor tenha tudo isso disponível.

Ele precisará ainda lutar contra as adversidades de um ambiente que não foi projetado para o trabalho, cuidar das atividades corriqueiras de casa, fazer exercícios físicos, e, talvez o mais importante: manter a saúde mental diante da pressão causada por um vírus altamente contagioso e letal.

Tudo bem, você deve estar pensando que sou mesmo pessimista e que enxergo problemas demais em detalhes… Espera um pouco… E o que houve com aquela frase famosa: “ninguém deve ser deixado para trás”. Por que agora, num momento de uma crise sem precedentes, é aceitável deixar alguém para trás?

Mas, para que você não saia deste blog achando que só mostro os problemas e não dou sugestão nenhuma para mitigar-lhes, vamos gastar algumas linhas com, pelo menos, uma sugestão.

A força da TV é muito grande ainda, principalmente a de sinal aberto. A disponibilidade de canais, depois da TV digital aumentaram as possibilidades, inclusive para a educação na modalidade a distância.

Para criar conteúdos de boa qualidade de caráter educativo para a televisão, exigem-se muitas pessoas. São diversos profissionais envolvidos, em várias etapas, de pré, de produção e de pós. A equipe técnica, por exemplo, não pode prescindir de um roteirista, dos técnicos de imagem e de som, dos especialistas em animação, dos editores, entre outros. Programas educativos de televisão exigem ainda a participação de professores conteudistas, professores apresentadores, professores palestrantes, além de outros especialistas, encenações e animações para explicar conteúdos, revisores etc.

É muito mais provável construir um material de boa qualidade unindo esforços de vários profissionais, aproveitando suas melhores habilidades, do que obrigar cada um a bancar o faz-tudo. O resultado da aposta no faz-tudo é o produto ser apenas uma satisfação dos recursos empregados e não um produto realmente útil.

Há, claro, a limitação de interação, ainda, na TV digital. No entanto, num sistema educacional baseado no treinamento para fazer prova, não seria nenhum crime, quando for seguro para as pessoas, marcar provas de validação para determinado nível de conhecimento.

Pelo alcance quase universal da TV, ela poderia sim ser uma grande aliada neste momento de distanciamento social. E talvez seja a única viável de fato.

E todos os professores seriam aproveitados nos programas televisivos? Além do programa centrado na TV, nada impede de que haja uma parte auxiliar no processo educativo a distância neste momento. Seriam profissionais indispensáveis para tirar dúvidas por telefone, ou por redes sociais, o que é mais provável de dar certo do que um aluno ficar 4 horas assistindo aula pelo celular ou lendo textos em letras minúsculas na tela do aparelho.

Se é preciso incluir e não deixar ninguém para trás, a TV é, neste momento, o único meio que pode nos deixar mais próximos deste objetivo.


Fique à vontade para compartilhar, comentar e sugerir mais ideias para o nosso mundo em distanciamento!

Até breve!

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* Doutor em engenharia civil,
Especialista em EaD.

quarta-feira, 18 de março de 2020

Cuidado com as pessoas que querem muito te ajudar

De vez em quando, me vem à cabeça uma piada que vi encenada pelo grande Didi Mocó Sonrizá Colesterol Mufumo e sei mais lá o quê.
Um cara parado sob uma árvore em uma praça onde passavam muitas pessoas com uma mala cheia de livros lacrados com a capa: DESCUBRA COMO SAIR DA CRISE.
Se não for isso, era algo com o mesmo sentido. O importante era a mensagem da piada.
Ao final do dia, tendo vendido TODOS os livros e com a mala cheia de dinheiro, vem um comprador do começo do dia e reclama com o vendedor dizendo que aquele livro está todo em branco, que não ensina ninguém a sair de crise coisa nenhuma.
É aí que o vendedor revela o truque: "meu amigo, eu descobri como sair da crise. Agora descubra você".
Sempre que alguém oferecer uma fórmula mágica para ganhar dinheiro, obter sucesso, etc, DESCONFIE.
Em geral, essas pessoas só querem o seu dinheiro. Se o que eles te ensinarem vai servir para alguma coisa... Bom, isso vai ser problema exclusivamente seu.
Então, fique vigilante! Há milhares de pilantras espalhados pela internet, prontinhos para abocanhar o seu dinheiro.
Até breve!