Pesquisar este blog

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Quem é você?

Você já ouviu a pergunta: "quem você pensa que é?". Claro que o contexto dessa pergunta geralmente é bastante negativo e carregado de sentimentos ruins! Mas vamos abstrair esse contexto e focar nessas cinco palavras, que juntas formam, talvez, um dos mais importantes questionamentos.

No contexto em que geralmente é usada, essa pergunta costuma nos remeter à posição que ocupamos ou à quantidade de poder que temos para resolver o conflito, mas no contexto que quero propor, mais pacífico e reflexivo, essa pergunta deve nos atingir com uma realidade devastadora: beira à insanidade definir um ser humano. 

Geralmente, essa resposta vem de maneira generalista. Se estivermos num encontro: "sou uma pessoa alegre, extrovertida, gosto de fazer novas amizades, sonho em ser feliz com pouco e gosto de rodear-me de pessoas com boas energias"; se estivermos em uma entrevista de emprego: "sou ambicioso, mas não ganancioso. Sei trabalhar em equipe, sou proativo e compartilho lideranças. Sou pontual, responsável, ágil e tenho facilidade de trabalhar sob pressão! Gosto de tomadas de decisão e meu maior defeito é ser perfeccionista!"; entre os amigos: "eu sou aventureiro! Adoro conhecer gente nova, sou leal e gosto de passar bons momentos com aqueles que amo! Pode confiar em mim, sou um túmulo para seus segredos mais profundos! Estou aqui pra tudo e pode contar comigo sempre que precisar!" 

Mas será que isso consegue definir quem somos? O maior empecilho para responder a essa pergunta é entendê-la! O que você quer dizer quando diz quem é você? Confuso, né? Mas olha só: somos  o que gostamos? Ou, o que comemos? Ou ainda, pra onde vamos? Somos o que dizemos ou o que pensamos? Somos o que fazemos ou o que sonhamos? Tentamos, a duras penas, nos encaixar, de forma binária, nessas definições pré-moldadas de ser. Alegre ou triste? Farrista ou caseiro? Romântico ou coração de gelo? Sonhador ou pé-no-chão?

Existe, ainda, outra reposta para essa pergunta que é muito cruel com a nossa existência, pior do que nos resumir a escolhas binárias, é nos definir como a nossa profissão. Até, vá lá, quando você vive a sua profissão com intensidade e ama o que faz ao ponto de querer fazê-lo vinte e quatro horas por dia, ainda é esmagador, mas compreensivo. Mas, quando você não gosta do que faz (é mais comum do que possa imaginar) e se resume, enquanto ser, àquela condição? É desumano!

Então, afinal de contas, quem é você? Se eu fosse me definir, diria que sou alegre, mas às vezes triste. Proativo e quase sempre preguiçoso. Gosto de fazer amizades e de ficar sozinho. Amo sair e ficar em casa. Amo ser pai, mas detesto ser pai! Amo meu emprego, alguns dias. Estudioso, mas só quando realmente preciso. 

Você e eu, somos uma avalanche inconstante de antíteses escancaradas. E, como dizia Renato Russo: "acho que não sei quem sou, só sei do que não gosto". 


___
Por Daniel Lucas
Estagiário da Vida.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A arte de perder.

Por Daniel Lucas 

Parafraseando Elizabeth Bishop, perder é uma arte! O nosso dia a dia está afogado nas perdas, da hora que acordamos à hora de ir dormir. Ao acordar, perdemos mais algumas horas de sono; ao lanchar leite com achocolatado, perdemos o café quentinho,; ao pegar o ônibus 042, perdemos o lugar vago no 061; quando dentro do ônibus escolhemos olhar o instagram, perdemos a amizade da pessoa sentada ao nosso lado.

Fato é que muitas dessas derrotas nos passam dormentes durante os nossos dias, mas talvez não devessem! Os seres humanos têm vivido de maneira automática: lanchamos pensando no trajeto para o trabalho, no trajeto pensamos nas obrigações atrasadas, no trabalho pensamos no almoço, no almoço pensamos na reunião da tarde, na reunião pensamos no trânsito infernal da volta, no trânsito pensamos no que vamos jantar e na janta estamos cansados demais pra pensar. Dormimos, dormentes.

Não me entenda mal, essa reflexão não tem por objetivo trazer para a nossa vida uma lamúria infinita sobre as coisas, pessoas, lugares e sensações que perdemos. Nada disso! Existem coisas que nasceram para serem perdidas! Os nossos pais, a casa que crescemos, alguns sonhos de infância (afinal não podemos todos sermos astronautas). O cerne dessa reflexão não é o que perdemos em si, mas o que fazemos com o que perdemos.

Perder é natural, é bom. Perder ensina, aumenta, fortalece. Apreciar as derrotas é possível, devemos apreciá-las tanto quanto apreciamos nossas vitórias. Uma vitória, geralmente é o resultado de várias derrotas consecutivas. Perca algo todos os dias e aceite! Perder é um exercício, perder é uma arte! E como toda arte deve ser dominada. Não é difícil dominar a arte de perder, apesar de parecer desastre!

________
Graduando em análise e desenvolvimento de sistemas e estagiário da vida. 

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Breve Comentário sobre o Salário-Mínimo

Uma pessoa com uma renda de um salário-mínimo não consegue suprir com dignidade suas necessidades básicas de moradia, alimentação, saúde e educação. 

Para ver que ele ou ela não conseguirá uma moradia digna, basta analisar que nenhum financiamento de imóvel vai alcançá-lo, pois essa pessoa não tem a renda mínima exigida para um financiamento e ainda que fosse aceita a renda de apenas um salário-mínimo, muito provavelmente este indivíduo não disporia do dinheiro para a entrada exigida. Some-se isso ao fato de tal pessoa ter menos estabilidade no emprego, normalmente passando alguns meses fora do mercado de trabalho para constatar a inviabilidade do financiamento. Portanto, resta o aluguel. Mas o valor do aluguel não pode ultrapassar os 30% da renda da pessoa, o que quer dizer que a mesma terá de encontrar algum imóvel com aluguel por volta de R$ 300,00. Obviamente, a qualidade de um imóvel nesse preço, na maioria das vezes não é capaz de proporcionar o bem-estar necessário a uma pessoa no que diz respeito ao conforto, por exemplo. Para ter uma ideia disso, visite o site da OLX e procure por imóveis alugados nessa faixa de preço. Perceba as localizações e as condições gerais do imóvel. Se você achar que pode viver com bem-estar, ou pelo menos dignamente, em um desses imóveis, tudo bem, não vou brigar com você por isso.

A palavra dignidade aqui parece mais uma alegoria, algo usado para parecer bonito e dar uma impressão de texto bem fundamentado do ponto de vista social. Então, vou explicar o que entendo por dignidade de moradia.

A dignidade de moradia para mim significa uma moradia onde haja espaço suficiente para as atividades corriqueiras, como cozinhar, lavar roupas, organizar seus pertences, iluminação adequada, vizinhança livre de violência e poluição de todas as formas, acesso ao saneamento, acesso a luz elétrica, instalações sanitárias que permitam uma higiene saudável. Agora você pode olhar novamente os imóveis na faixa de 300 reais.

Digamos que a pessoa alugou uma casa por 300 reais. Ainda precisamos avaliar o valor da cesta básica para ver se cabe perfeitamente no orçamento. Segundo o DIEESE, em publicação de 6 de fevereiro de 2019, a cesta básica mais barata do país custa R$ 348,85 e a mais cara, R$ 467,65. Então, como estamos sendo o mais benevolentes possível, tomemos a de menor preço. Então, já gastamos 648,85 reais dos 998,00 do salário recebido (no ano de 2019) e observe que não apliquei nenhum desconto previdenciário ou outro qualquer. Temos assim, R$ 349,15 para dividir para saúde e educação? Não ainda. Esquecemos de incluir aí o gás de cozinha, que nem está na cesta básica e muito menos no aluguel. Perdemos pelo menos R$ 40,00, considerando que cada botijão irá durar 2 meses. Dois meses é o bastante, acredito, pois a pessoa não vai usar muito o forno para fazer pernis ou bolos com muita frequência, não é mesmo? Assim, 309,15 é que ela tem para educação e saúde. Cultura? Podemos deixar isso limitado à TV aberta mesmo. Internet, seria um custo excessivo para quem provavelmente não possui um computador e usa no máximo alguns aplicativos em um smart fone comprado a duras penas.

Quais serviços de educação e saúde se pode adquirir com R$ 309,15?

Se mal pode se sustentar, quanto menos uma família. Pessoas nessa situação passam pela vida com precariedade em todos os campos: moradia precária, alimentação deficiente e às vezes a falta dela, atendimento hospitalar apenas em urgência ou emergência do SUS, e nenhuma condição de acesso a educação. Daí vêm outras violências, como a negação do acesso a cultura, e aqui muita gente acha que pessoas de baixa renda não devem ter acesso a espetáculos de artistas famosos, pelo que atacam certas leis de incentivo a cultura; a negação do direito de escolher ter filhos, que para muita gente é exclusivo de quem "pode criar"; a exclusão do direito de ir e vir no lindo e vasto território nacional, pois milhões de pessoas nunca sairão nem de seu bairro, e não por falta de vontade. 

As fórmulas mágicas para mascarar a brutal desigualdade social são: "só depende de você", "Deus te deu uma prova aqui na terra", "a culpa é do sistema" (para conformar os ateus, principalmente), "cada um tem aquilo que merece", "a desgraça daquele é para testar a caridade do outro", e por aí vai. Mas a verdade é que a pobreza dá lucro, só não para o pobre.

Bom, o texto está ficando mais longo do que eu imaginei, então, vamos encaminhando para o final com o seguinte raciocínio: os serviços públicos oferecidos normalmente para pessoas de baixa renda são na verdade uma transferência de custos do empresário para a sociedade. O empresário economiza no salário e transfere os custos para a sociedade para que ele tenha um funcionário minimamente alimentado, saudável, e morando em algum lugar que não seja a marquise de sua empresa.

Obrigado pela visita e até breve!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Desqualificando a Avaliação Docente pelo Corpo Discente

Por Marcos Rodrigues Pinto*



As instituições de ensino vêm aplicando questionários avaliativos da atividade docente a cada período letivo. Nestes questionários, os alunos respondem um conjunto de perguntas as quais visam avaliar o docente quanto a quesitos como pontualidade, assiduidade, conteúdo, incentivo à participação do aluno, metodologia de ensino, avaliação, relação professor-aluno, e se existe um clima de respeito na relação professor-aluno.

Vamos primeiramente analisar cada um desses quesitos para mostrar a desqualificação do questionário devido a má interpretação da pergunta, a falta com a verdade pelo que responde ao questionário, e mesmo a idiossincrasias as quais são inescapáveis quando se conhece o público a quem eles são aplicados.

O primeiro problema é causado pelo conhecido analfabetismo funcional que é fruto de uma educação de vitrine, com promoções automáticas e a desconsideração das peculiaridades do indivíduo. O segundo problema é muito mais particular, e vai depender do caráter do aluno e da sua relação com o professor. O terceiro é também particular, mas neste caso é a visão de mundo que o sujeito tem que vai determinar a resposta que ele vai dar, tirando a objetividade da avaliação e se perdento nas escolhas particulares de habitantes de mundos particulares. Em todos os casos, a avaliação tanto positiva quanto negativa fica prejudicada.

O quesito pontualidade é o que mostra mais distorção entre a realidade e o resultado do questionário. Um professor que nunca faltou a uma única aula, e que chegou pontualmente a todas elas, ganha o conceito mínimo de alguns alunos, o médio de outros tantos e o máximo do restante da turma. Como este quesito se refere a um fato objetivo e, no caso de pontualidade a todos os encontros a resposta única possível seria o conceito máximo, independente de qualquer aspecto subjetivo, como se pode explicar que alguns alunos tenham atribuído conceitos diferentes? Logo no primeiro quesito vê-se que o questionário não tem valor algum e não servirá de base para qualquer estudo que se julgue sério.

Assiduidade é a condição de quem é assíduo, isto é, que não falta com suas obrigações, que se faz presente constantemente em um local. Pela definição de assuduidade e pela objetividade da pergunta, novamente temos no caso de um professor que nunca faltou a nenhuma das aulas e as cumpriu conforme seu plano foi assíduo indubitavelmente. O fato de haver respostas a este quesito diferentes do conceito máximo também desqualifica todo o questionário. Podemos estar diante de uma indisposição idiossincrática do aluno, ou simplismente da falta da verdade, ou mesmo da incapacidade de compreender o significado de ser assíduo. O vocabulário limitado causado essencialmente pelo analfabetismo funcional, mas não só por ele, pode ser causa de desqualificação desses questionários para quaisquer fins. Qualquer pessoa com o mínino de desenvolvimento cognitivo poderia usar a lógica para chegar a essa conclusão.

No quesito conteúdo, quer-se avaliar a clareza com que o docente apresenta o conteúdo. Ora, se o aluno não possui os requisitos mínimos para cursar aquele grau e está ali conduzido por um sistema de promoção automática, necessariamente ele terá uma dificuldade monstruosa para compreender qualquer apresentação séria de um conteúdo. Um exemplo que pode ser dado aqui é na disciplina de língua portuguesa. Como o aluno vai poder considerar clara uma apresentação do conteúdo sobre orações subordinadas assindéticas se ele nem sequer sabe o que é uma oração? Temos também a via em mão contrária: uma minoria que domina o conteúdo, independente da capacidade expositiva do professor, responde à questão com o quesito máximo, uma vez que para eles tudo o que foi apresentado foi absolutamente claro. Piorando este último cenário, apenas esses alunos responderam a essa questão. Logo, uma pergunta que deveria ser objetiva cria possibilidades infinitas para a subjetividade e, consequentemente, para a desqualificação do questionário.

No que se refere ao incentivo à participação do aluno, temos um enorme espaço para idiossincrasias diversas. Há possibilidade inclusive de o aluno achar ruim ser incentivado à participar e, devido sua falta de compreensão sobre a pergunta acaba por responder que o professor teve um desempenho insatisfatório neste quesito, uma vez que o incomodou demais solicitando a sua participação. Este exemplo, embora pareça bastante esquisito, infelizmente é uma situação real. Nenhum incentivo pode ser feito por imposição. De modo que o mais frequente é deixar a oportunidade aberta e solicitar a participação voluntária do discente. Caso os alunos que atendam a essa solicitação sejam sempre os mesmos, procura-se incentivar diretamente a participação dos que costumam se manter reservados.

A metodologia de ensino vai ser avaliada pelo aluno, que não recebeu instrução sobre o que é uma metodologia de ensino. Logo, esperamos que ele imagine o que seria uma metodologia de ensino e que, dotado da capacidade de comparação, acabe por fazer uma avaliação mais ou menos coerente do professor. O mecanismo de comparação é essencial no cérebro humano para que façamos as melhores escolhas de acordo com as informações que temos a respeito das duas coisas comparadas. O principal problema aqui é justamente sentimental. Quem elabora o questionário idealiza uma pessoa livre de sentimentalidades, honesto, totalmente capaz de compreender a pergunta e optar pela resposta que mais se adeque ao seu juízo. No entanto, a realidade é apenas um arremedo dessa idealização, quando não a antítese. O aluno que tenha empatia pelo professor, normalmente o elogia neste quesito, o que é igualmente errado quando comparado ao caso do aluno que, por antipatia, dá o conceito mínino a um professor.

O motivo para empatia ou antipatia, quando se trata do aluno médio pode estar ligado ao fato de o aluno se sentir desconfortável diante de situações que exponham a fragilidade de sua formação, envolvendo capacidade de leitura e compreensão de texto, habilidades básicas em matemática, conhecimentos básicos de ciências humanas e exatas.

Qualquer um que passe 12 anos em uma escola e descubra que suas promoções até concluir o nível médio foram simplesmente automáticas e não por mérito tem toda a razão de se sentir traído. O problema é que este sentimento não pode retroagir e ser derramado sobre a escola antiga. E dificilmente este aluno vai admitir a fragilidade de sua formação nestes 12 anos, pois a escola o faz pensar que a culpa é exclusivamente dele, mesmo que ele tenha sido promovido ano a ano, sem que tenha desenvolvido as habilidades necessárias para esta promoção.

Precisamos lembrar aqui que 30%, no mínimo, dos alunos que ocupam as vagas nas universidades são considerados analfabetos funcionais. E isto é um dado alarmante, mas que vem embasar de certa forma a impropriedade e até a inutilidade dos questionários feitos aos alunos para a avaliação docente.

Uma pergunta sobre a avaliação, se ela está de acordo com o conteúdo apresentado, também não é capaz de traduzir os acontecimentos da sala de aula de forma razoável. A maioria dos professores apresenta um conteúdo e faz uma avaliação estritamente dentro desse conteúdo, dificilmente o conectando a outros temas, e quando o faz, usa de uma razoabilidade que dificilmente motivaria alguma reclamação justa. Tanto é que se apresenta variado o percentual de respostas quanto ao ajuste entre conteúdo e o que é cobrado na avaliação. Por que um aluno afirma que a avaliação está de acordo com o conteúdo e outro aluno afirma o contrário? Qual dos dois está faltando com a verdade? Um simples exame usando o raciocínio lógico desqualifica mais uma vez o questionário e seus resultados.

A relação professor-aluno é a mais estúpida pergunta desse tipo de questionário. O professor atende a um público grande, variado, cheio de especificidades. Há indivíduos extremamente melindrosos, que por um olhar que não seja o olhar certo que ele espera naquele momento acaba por construir um problema de relacionamento, não somente entre ele e o professor como em relação a ele e outros colegas. Por outro lado, professores que naturalmente sejam mais simpáticos ganham notas mais altas, não necessariamente porque mantenha uma relação adequada com o aluno, mas porque ganhou a simpatia do aluno. Ter uma relação adequada com o aluno não é abraçá-lo, cumprimentá-lo efusivamente, ou elogiá-lo eloquentemente. A intenção, se é que o questionário teve um planejamento pelo menos racional, está estritamente dentro do âmbito profissional.

Outra pergunta que provavelmente foi planejada por alguém guardando uma enorme mágoa de seus antigos professores é se existe um clima de respeito na relação professor-aluno. Se um professor assedia moral ou sexualmente um aluno ou uma aluna, isto é uma conduta criminosa, e não uma questão de simples ajuste de conduta. O que o aluno considera desrespeitoso? O que o aluno considera respeito? A diversidade cultural e de religião, por exemplo, dificulta o estabelecimento de um critério universal. Por uma aluna cristã fervorosa, um professor de biologia poderia ser considerado desrespeitoso por afirmar que o universo surgiu de uma explosão cósmica e que os seres humanos evoluíram de macacos. Um questionário sério elencaria as situações que se quer mapear e pediria ao aluno que marcasse quais daquelas condutas foram observadas em sala. Por exemplo: o professor usou palavras de baixo calão durante uma aula. Essa é uma conduta desrespeitosa de âmbito universal e que não é cabível na convivência social.

Sendo assim, a marca maior desses questionários é a vagueza de suas ideias e o amplo espaço para idiossincrasias das mais variadas. Prova disso é o fato de as respostas serem normalmente variadas, distribuindo-se em percentuais de opiniões antagônicas, como se estivéssimos diante de um programa de TV e o professor estivesse recebendo votos de um público que se dividiu em torcida a favor e, eventualmente, contra.


----------------
* Doutor em Engenharia Civil, especialista em EAD. Áreas de interesse: algoritmos genéticos, matemática aplicada, filosofia, economia, linguística, política, direito.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A apropriação da cultura como um problema racial



Dentre muitas discussões acerca da apropriação cultural, me encarreguei de tratar de um ponto específico: o enfraquecimento de uma cultura minoritária, como a afro-brasileira pela apropriação cultural capitalista. Já dizia Karl Liebknecht “A lei básica do capitalismo é ‘você ou eu " e não você e eu’.” Esta foi uma conclusão que também pude observar pelo posicionamento de uma marca famosa chamada Farm que criou roupas estampadas e turbantes e ainda colocou uma mulher branca para desfilar vestida de Iemanjá, ou seja, utilizou-se de referências da cultura brasileira para lucrar comercialmente. A apropriação cultural nada mais é que a utilização de elementos simbólicos de determinada cultura por um grupo cultural diferente.

O problema não está nas mulheres brancas se apropriarem da vestimenta da cultura negra, mas está na comercialização dessas referências culturais por um grupo culturalmente divergente e que ainda por cima, escolhe uma mulher branca, como no caso acima, como representante da propaganda de sua marca para obter lucro, ou seja, o que se pode dizer de fato “apropriação cultural”.

No tempo que não parece tão distante de nós assim, o da colônia, a cultura minoritária como a afro-brasileira e a indígena foram marginalizadas pelos portugueses, esse tempo deixou marcas do racismo impregnadas na sociedade até hoje. Por que não paramos para pensar? A herança negra e indígena deve sim ser resguardada pela sua história e sua diversidade cultural brasileira e não ser utilizada como marketing comercial por um grupo predominantemente branco em troca de dinheiro e pior sem empoderamento cultural e humano, pois já dizia Karl Marx “a desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas”.

Assim, a apropriação cultural quer transmitir uma mensagem de igualdade, mas não é verdade e também não é bonito esse tipo de mensagem que eles passam, pois existe desigualdade social e racial no Brasil e no mundo e não vai ser se apropriando da cultura de um grupo minoritário que vai resolver esse problema, como pensam aqueles que querem cortar as leis de cotas raciais, ao contrário, vai enfraquecer a luta da minoria pelos seus direitos que ainda não cessam de acabar, por isso, a importância do protagonismo dos negros de sua imagem e identidade contra a cultura predominante branca.

sábado, 3 de agosto de 2019

Escrever é fácil.

Disse Pablo Neruda, poeta chileno: "Escrever é fácil. Você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio coloca as ideias". Pode não parecer, à primeira vista, mas essa frase é tão rica em significado quanto se possa imaginar.

Nesse pequeno conjunto de palavras existe um universo de metáforas e uma delas me chamou a atenção com mais intensidade. Após ler essa frase entrei em uma espécie de transe pensante, profunda reflexão, que me levou a uma observação óbvia mas nem tanto. Por que faço ou não faço o que faço ou não faço?

Todos os dias somos bombardeados com escolhas, impasses, problemas, dúvidas e temos que respondê-las geralmente fazendo ou deixando de fazer ou falar algo. Algumas escolhas são tão triviais como qual par de meias usar (se é que conseguirei encontrar um par), algumas ficarão conosco durante mais tempo como a cor do sofá novo, o nome do nosso animal de estimação, e existem também aquelas que, possivelmente, nos acompanharão para o resto de nossas vidas, como por exemplo, a escolha de nossa carreira, a compra da casa própria, o nome do nosso filho...

Assim como escrever, viver é fácil. Nós nascemos e morreremos, no meio fazemos escolhas. Escolher, por sua vez, é perder sempre! Sempre que escolhemos algo perderemos aquilo que não escolhemos.

domingo, 14 de julho de 2019

Gangues Virtuais e o Direito de Livre Pensamento e Expressão

Por Marcos Rodrigues Pinnto*





O inciso IV do artigo 5° da Constituição Federal garante o direito de livre pensamento e de sua manifestação, sendo proibido o anonimato.
Infelizmente, há quem se julgue acima dos preceitos constitucionais e cometa atentados contra a liberdade de pensamento e de expressão.
Recentemente, nas redes sociais, principalmente Twitter, Facebook e Instagram, verdadeiras gangues virtuais, essas sim anônimas, atuam contra essa liberdade por basicamente três mecanismos:

1 - intimidação: toda vez que alguém se manifesta de forma contrária ao pensamento corrente e dominante adotado por essas gangues, membros das mesmas passam a atacar a pessoa que se manifestou, normalmente por ofensas, pois em geral não têm capacidade argumentativa para debater os assuntos que eles próprios defendem. Em casos mais graves, lançam mão da ameaça aberta, sempre usando perfis falsos que, embora combatidos tão veementemente pelos proprietários das redes, são usados e abusados para cometer diversos delitos.

2 - desacreditação: procuram expor supostos defeitos daqueles a quem se opõem, fazendo acusações levianas para com isso diminuir o crédito das ideias ou argumentos aos quais a gangue é contrária. Esse mecanismo chega ao cúmulo de roubar fotos do perfil verdadeiro da vítima para posterior divulgação nas redes, associando aquela imagem ao cometimento de algum crime, ou de alguma outra conduta moralmente duvidosa.

3 - bloqueio/denúncia em massa: esta última tática tem o objetivo de causar a suspensão ou o bloqueio da conta do usuário perseguido. Em geral, as redes têm mecanismos automáticos para banir ou suspender contas de usuários que estejam infringindo suas normas de conduta. Infelizmente, esses mecanismos não são capazes de detectar quando uma gangue age para proceder denúncias falsas ou mesmo o bloqueio em massa de modo que o algoritmo da rede decida suspender ou banir o usuário.

Evidentemente, essa prática odiosa só pode ocorrer em ambientes tóxicos onde o autoritarismo e a não aceitação da diversidade do pensamento sejam a regra. 

Uma vez que o sistema legal garante a liberdade de pensamento e a livre expressão do mesmo, o que deixa as gangues legalmente impedidas de calarem vozes dissonantes das suas, estas recorrem a meios espúrios para atingir seus objetivos. Assim, provocam a saída de pessoas que discordam inteira ou parcialmente das sua ideias, dando a falsa e impossível impressão de homogeneidade de pensamento nas redes sociais.

Essa prática é danosa a sociedade como um todo, inclusive aos próprios usuários dos mecanismos dispostos acima, pelo simples fato de que o progresso das ideias só pode ocorrer em um ambiente onde haja diversidade de pensamento e a expressão do mesmo. Negar o direito de expressar o pensamento diverso é simplesmente mutilar a democracia, deformando-a a tal ponto que não mais se reconhece a democracia, mas sim um regime autoritário moldado para que poucos dele tirem todo o proveito possível, enquanto as massas são silenciadas e, vez que não podem se manifestar sem que sejam ameaçadas ou perseguidas, criam uma ilusão de paz social.


_________________________________________________

* Doutor em Engenharia Civil, especialista em EAD. Áreas de interesse: algoritmos genéticos, matemática aplicada, filosofia, economia, linguística, política, direito.